← Portal OAB-PR|

Notícias

05 de outubro de 2023

Em artigo publicado na Gazeta do Povo, presidente da OAB Paraná lembra os 35 anos da Constituição Federal

Em artigo publicado na Gazeta do Povo, presidente da OAB Paraná lembra os 35 anos da Constituição Federal

A promulgação da Constituição Federal completa hoje 35 anos. A presidente da OAB Paraná, Marilena Winter, aponta a Carta como elemento consolidador da democracia brasileira no artigo “Todos Iguais perante a lei”, publicado hoje pela Gazeta do Povo (acesse aqui). “A Constituição de 88 restabeleceu a liberdade de expressão, o fim da tortura, a criminalização do racismo. É muito quando voltamos os olhos para as duas décadas de regime militar, tempo em que as liberdades individuais foram suprimidas”, diz um trecho do texto.

Abaixo, o artigo na íntegra:

Todos iguais perante a lei

Marilena Indira Winter

Neste 5 de outubro celebramos o 35º aniversário da Constituição que ganhou o epíteto de “cidadã” pelos avanços na direção da inclusão social e pela clareza no estabelecimento de direitos e deveres individuais e coletivos. Às vésperas da 8ª Conferência da Advocacia Paranaense – a ser realizada de 25 a 27 de outubro, em Curitiba e que celebra também os 45 anos da Conferência Nacional realizada em Curitiba, que marca o início do processo de redemocratização – o teor da Carta de 1988 e seu papel como elemento a consolidar a democracia brasileira têm sido temas recorrentes na OAB Paraná.

É bem verdade que os 20 meses que marcaram a Assembleia Nacional Constituinte não correram placidamente como tendemos a pensar sob o distanciamento que nos leva a romantizar fatos históricos. Disputas acaloradas, fruto de diferentes visões de mundo, marcaram a elaboração da Carta. Como revela o jornalista Luiz Maklouf em “1988: Segredos da Constituinte”, os embates foram bastante além do saudável contraponto de ideias que caracterizam as democracias – consolidadas ou em gestação. Conluios e ameaças são relatados pela maior parte dos 43 personagens da Constituinte entrevistados por Maklouf. As relevações feitas pelo ministro Nelson Jobim ao jornal O Globo em 5 de outubro de 2003, quando do 15º aniversário da Carta, são outra evidência de que o cotidiano dos 559 parlamentares reunidos na Assembleia Nacional esteve longe do que se pode classificar como um campo de cooperação plena. Jobim confessou que ele e Ulysses Guimarães enxertaram na Carta artigos que jamais foram votados – um deles o dispositivo que fixa a interdependência entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

O certo, contudo, é que, capitaneados por Ulysses, os constituintes fizeram do texto um mapa para que os brasileiros deixassem definitivamente para trás o arbítrio e a ausência da liberdade. Ir e vir, manifestar-se, reunir-se, sindicalizar-se, praticar cultos são ações hoje corriqueiras são frutos das bases fundamentadas em 1988. Em linha semelhante podemos ver a instituição dos Poderes, as eleições livres e as políticas afirmativas que têm aberto espaços para pessoas que não tinham voz em outros tempos pretéritos.

O tempo revelou que a Constituição alcançou o fito de ser um documento capaz de garantir, no texto,  àquela e às futuras gerações, direitos inegociáveis — à livre expressão, à pluralidade, às diferenças. Se a distância nos revela alguns defeitos – humanos que somos – na confecção da Carta, evidencia também a beleza de um texto que teve como ponto de partida mais de 80 mil mensagens populares explicitando os anseios e necessidades dos brasileiros. Mas também revela, no presente, um expressivo rol de promessas não cumpridas e o quanto ainda há por fazer para lhe dar efetividade.

Não se constituindo em obra acabada, a Constituição Federal já foi objeto de mais de uma centena de emendas. O poder de reforma, inclusive, é parte da Constituição, cujas limitações, nas palavras de Oscar Vilhena Vieira, “devem assegurar a proteção especial àqueles direitos, princípios e instituições que, além de essenciais à formação de uma vontade democrática, constituem verdadeira reserva constitucional de justiça.”  Reformas são necessárias, porque o texto também precisa acompanhar o fluir da história, mas é vital adequarem-se aos princípios constitucionais e que conservem o respeito às regras do jogo democrático e a valorização da dignidade de toda a pessoa humana.

A Constituição de 88 restabeleceu a liberdade de expressão, o fim da tortura, a criminalização do racismo. É muito quando voltamos os olhos para as duas décadas de regime militar, tempo em que as liberdades individuais foram suprimidas. É bem verdade que o harmônico equilíbrio entre os poderes que são pilares da República ainda é tarefa por ser completada. Assim é a democracia, a nos demandar permanente atenção e aperfeiçoamento. Não exatamente das regras do jogo, mas daquilo que interpretamos e da maneira como nos conduzimos sob essas regras.

Olhando em perspectiva para o arco temporal aberto na 7ª Conferência Nacional da OAB, na qual aqui em Curitiba a advocacia brasileira precisou clamar pela volta do Habeas Corpus, são evidentes os avanços da Constituição promulgada em 5 de outubro de 1988. Temos garantida a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. A democracia está em permanente construção e a tarefa não é simples, transcendendo gerações. É sob esse olhar de esperança na consolidação dos seus valores e princípios que celebramos os 35 anos da nossa Constituição.

Marilena Indira Winter é presidente da OAB Paraná.

Foto: Beto Barata/PR/Reprodução da Gazeta do Povo
Advogado inscrito na OAB-PR? Acesse o Portal Completo →