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19 de outubro de 2023

Jurista alemão fala sobre os desafios das políticas públicas sobre drogas em seu país

Jurista alemão fala sobre os desafios das políticas públicas sobre drogas em seu país

O professor emérito de Criminologia da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, Sebastian Sheerer foi o convidado especial do Seminário de Políticas Públicas sobre Drogas, realizado nesta semana na OAB Paraná. Durante o evento, ele compartilhou sua análise sobre a realidade de seu país e trouxe reflexões do direito comparado que podem inspirar a condução do tema no Brasil. Confira a entrevista que ele concedeu à OAB Paraná:

Qual recorte o senhor traz ao abordar a política sobre drogas na Alemanha?

Eu falo de um aspecto do papel do Judiciário na Alemanha, procuro esboçar um histórico das falhas e do fracasso do Judiciário frente às provas.

E o senhor poderia sintetizar quais seriam as principais causas desse fracasso?

 A causa principal é constitucional. O Judiciário na Alemanha, depois da guerra, tinha a tarefa de rever todo o Código Penal, que datava do tempo do império, um tempo autoritário que não tinha nada a ver com democracia. O Código Penal é muito mais antigo do que a própria Constituição. Então você não pode viver com o código do império, do autoritarismo antidemocrático na realidade. Era preciso constitucionalizar o Código Penal. E o Judiciário na Alemanha tinha essa tarefa em 1949. E em vez de revisar a lei, tendo em vista a nova forma da democracia liberal, eles continuaram do mesmo jeito, como se nada tivesse acontecido. E assim algumas leis anticonstitucionais, como por exemplo a criminalização da homossexualidade, continuaram vigentes, ainda que a tarefa do Judiciário fosse declarar inconstitucional. A mesma coisa ocorreu com as leis das drogas. Porque uma constituição liberal que põe a dignidade da pessoa e a liberdade do indivíduo e a não discriminação no centro do pensamento político não pode criminalizar uma preferência de uma droga de lazer que seja diferente do cigarro de tabaco. Tudo faz muito mal para a saúde. E eles continuaram como se nada tivesse acontecido. Então entro um pouquinho no histórico.

E esse fracasso perdura até hoje da política de drogas na Alemanha ou houve alguma correção?

Tem uma correção legislativa tanto em relação à homossexualidade quanto em relação às drogas. Hoje em dia há um programa do governo e um projeto de lei para descriminalizar a maconha, na Alemanha. E vão fazer isso até o ano que vem, já é um projeto bastante avançado. Mas o papel do Judiciário não foi positivo nesse contexto, sempre foi uma obstrução desse processo em vez de uma ajuda por parte do constitucionalismo.

E o senhor conhece a política de drogas do Brasil? Consegue fazer alguma avaliação sobre como as coisas são conduzidas aqui?

Conheço um pouco da literatura, especialmente a crítica da lei de 1986 por Maria Lúcia Karam e também a obra bastante conhecida do [Luís Carlos] Valois, O direito penal da guerra às drogas. E conheço alguns pesquisadores aqui que são muito bons. A lei aqui tem muitos defeitos e o Judiciário, pelo que eu sei, não ajudou muito a constitucionalizar as coisas.

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